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Moises Matos - O dicionário que encolhe Sobre a novilíngua, a clínica e o que se perde quando falta a palavra exata

20 de ago.
5 min de leitura

Atualizado: há 6 dias


Outro dia, ouvi alguém recontar, num desses vídeos que aparecem sem aviso na tela do celular, uma cena de 1984 que passa quase despercebida entre os episódios mais citados do romance. Fui reler. Não é a tela que vigia, não é o Grande Irmão, não é a sala das torturas. É um almoço na cantina. Winston Smith divide a mesa com um colega, um filólogo encarregado de preparar a nova edição do dicionário de novilíngua. O homem fala com o entusiasmo de quem descreve um trabalho bem-feito — e o que ele descreve é isto: sua função não é inventar palavras, é destruí-las. A cada edição, o dicionário fica menor. Se "ruim" pode ser dito como "não bom", então "ruim" é supérfluo. E o supérfluo se elimina.


O que arrepia nessa cena não é a destruição em si. É o argumento. A finalidade da novilíngua não é facilitar a comunicação; é estreitar o raio de ação da mente até que certo pensamento se torne impossível. Impossível não porque proibido, mas porque não restará palavra com que pensá-lo. O regime não precisará censurar a ideia. Terá recolhido o material com que ela é feita.


Orwell escreveu isso como sátira política, e como sátira política funcionou bem demais. Mas a tese excede a política. É uma tese sobre a mente: o pensamento não é anterior à língua, à espera de vocabulário para se exprimir. Ele se faz na língua, com o que a língua oferece. Reduza o léxico e você não terá apenas um falante mais pobre; terá um pensador mais estreito.


A Novilíngua Sem Ministério


O que torna a hipótese inquietante é que ela não depende de um regime para se cumprir. Em consultório, vejo o dicionário encolher sozinho — sem decreto, sem ministério, sem ninguém encarregado da nova edição.


Uma pessoa chega e diz: "ansiedade". Diz de novo na semana seguinte, e na outra. Com o tempo, escutando melhor, percebe-se que a mesma palavra está sendo usada para nomear coisas que não se parecem entre si. Um medo pontual, com objeto e hora marcada. Uma tristeza antiga, que já estava ali antes do episódio de agora. Uma raiva que ela não tem coragem de sentir e que, dita como ansiedade, fica sendo um problema de nervos em vez de um conflito com alguém. Três experiências distintas, três origens distintas, três destinos distintos — e uma só palavra para as três.


O efeito é exatamente o que o filólogo de Orwell prometia. Não é que a pessoa deixe de sentir. Ela sente tudo, e com intensidade. O que ela perde é a possibilidade de pensar aquilo que sente, porque pensar exige distinguir, e distinguir exige mais de uma palavra. Quando "ansiedade" recobre dez estados diferentes, os dez recebem a mesma resposta: respirar fundo, aguentar, medicar, esperar passar. Nenhum deles recebe a resposta que pediria se tivesse nome próprio.


O mesmo acontece com "fracasso". É uma palavra generosa demais: engole o erro, engole o aprendizado, engole a mudança de rumo, engole até o simples fato de não corresponder ao que outra pessoa esperava. Quem só dispõe dela para nomear quatro acontecimentos tão diferentes vive uma vida em que quase tudo é fracasso — não porque seja, mas porque não há mais onde arquivar.


Nomear é Diferenciar


Freud chamou o método de cura pela fala, e a expressão continua sendo mal compreendida como desabafo. Não é. Falar, em análise, não é descrever um estado que já estava pronto lá dentro esperando descrição. É produzir a diferença que faltava. A palavra não fotografa o afeto; recorta-o. Antes de ter nome, aquilo era massa — pressão no peito, insônia, irritação difusa. Depois de nomeado com alguma precisão, torna-se um objeto que se pode examinar, situar numa história, contradizer.


Wittgenstein chegou a uma intuição próxima por outro caminho, e sem clínica nenhuma: "os limites da minha língua são os limites do meu mundo". A frase costuma ser lida como constatação melancólica sobre o indizível, mas há nela algo bem mais operante. Se o mundo de alguém termina onde termina o seu vocabulário, então ampliar a língua não é ampliar o que se pode dizer — é ampliar o que se pode habitar. Quem não dispõe da diferença entre culpa e vergonha não vive as duas de modo confuso: vive uma só, e vive menos.


Lacan levou a intuição ao extremo com a fórmula de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Não se trata de dizer que o inconsciente fala português, e sim que ele obedece às leis do significante: desliza, condensa, substitui, faz trocadilho com o corpo quando não encontra outro caminho. Nessa perspectiva, não somos exatamente donos da língua que falamos; somos, em boa medida, efeito dela. O que se herda de uma família não é apenas sobrenome e patrimônio — é um repertório: as palavras que ali eram permitidas, as que não tinham tradução, aquilo que só podia comparecer como sintoma porque nunca teve nome à mesa. Um número enorme de análises começa precisamente nesse ponto: onde terminava o dicionário doméstico.


É por isso que o trabalho analítico se parece, em certo sentido, com o trabalho inverso ao do filólogo da novilíngua. Sessão após sessão, o dicionário do analisando aumenta. Não por erudição — ninguém melhora por aprender sinônimos — mas porque experiências que estavam amontoadas sob um único termo vão se separando e reivindicando termos próprios. Não é "ansiedade", é medo de ser demitido. Não é "fracasso", é ter escolhido outra coisa. Não é "cansaço", é não querer mais. Cada uma dessas frases é uma edição ampliada do dicionário — e, portanto, um pensamento que antes não podia ser pensado.


A Palavra que Fecha


Seria simples demais, porém, terminar aqui, com a moral de que mais palavras produzem mais liberdade. Nem toda palavra abre.


Há um segundo modo de empobrecimento, e este é contemporâneo: o da palavra que chega rápido demais. Vivemos cercados de um vocabulário psicológico de circulação fácil — traumas, gatilhos, transtornos, perfis, diagnósticos apanhados em vídeos de um minuto. Ele parece o oposto da novilíngua, porque é abundante. Mas cumpre a mesma função quando o nome serve para encerrar a investigação em vez de abri-la. "Sou ansioso" pode ser tão terminal quanto não ter nome algum: uma vez dito, não há mais o que perguntar. A palavra deixou de ser instrumento e virou identidade — e identidades não se examinam, se defendem.


De modo que o problema nunca foi de quantidade. É de precisão e de tempo: encontrar a palavra que corresponde ao que ali se passa, e encontrá-la no momento em que ela ainda serve para pensar, não para arquivar.


O Que Se Perde


Nós tendemos a imaginar a censura como alguém que arranca a frase da nossa boca. A cena da cantina sugere uma censura muito mais econômica, que não precisa nos calar: basta que, no dia em que quisermos dizer algo, a palavra exata não exista mais.


E aqui está o ponto que me parece decisivo, tanto para a leitura do romance quanto para a clínica. Se um dia lhe faltar a palavra precisa para nomear o que sente, você não deixará de sentir. O afeto não depende de autorização linguística; ele acontece de qualquer modo, e continuará acontecendo, mudo, à revelia. O que você perderá é a capacidade de pensá-lo — e, com ela, a de fazer alguma coisa a respeito.


Um dicionário que encolhe não silencia ninguém. Apenas transforma sofrimento em ruído. Por isso, cuide da sua linguagem. Não como quem zela por elegância, mas como quem zela pelo próprio instrumento de pensar.


Conclusão


Cuidar da linguagem é essencial. A forma como nomeamos nossas emoções e experiências molda nossa capacidade de compreendê-las. Ao ampliar nosso vocabulário, ampliamos também nossa percepção do mundo. Isso nos permite navegar melhor em ambientes complexos. A comunicação clara e precisa é uma ferramenta poderosa para líderes e executivos. Portanto, invista tempo em desenvolver sua linguagem. Isso não apenas enriquecerá suas interações, mas também fortalecerá sua capacidade de liderança.


A linguagem é o nosso principal instrumento de pensamento. Portanto, não a negligencie.

 
 
 

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