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O manipulador mais perigoso não mente Uma leitura psicanalítica de Otelo, o mouro de Veneza. Por Moises Matos

8 de ago.
2 min de leitura

Shakespeare escreveu uma peça de teatro que continua sendo, talvez, uma das mais perturbadoras que existem: Otelo, o mouro de Veneza.

Otelo era um general mouro a serviço do exército veneziano. Era um homem brilhante, recém-casado com Desdêmona, uma jovem nobre a quem amava profundamente. Tinha a seu lado Iago, seu alferes, a quem considerava um homem muito leal — tanto que, com frequência, o chamava de “o honrado Iago”.

Por sua vez, Iago o odiava profundamente, porque Otelo promoveu Cássio ao posto de tenente em vez de promovê-lo a ele. Então Iago decidiu destruí-lo.

Mas Iago nunca mentiu abertamente para Otelo. Ele deixava frases pela metade. Suspirava antes de responder. Dizia coisas como “eu não gostaria que você ficasse com ciúmes” e, logo depois, não dizia mais nada. Ele sabia que Otelo, sozinho, preencheria os espaços em branco com seus próprios medos.

Um dia, o lenço que Otelo havia dado de presente a Desdêmona caiu no chão sem querer. Iago o pegou e o colocou, em segredo, no quarto de Cássio. E foi só isso. Um lenço. E com isso construiu a prova que convenceu Otelo de que sua esposa o estava traindo.

E Otelo a matou. E, quando descobriu a verdade, suicidou-se sobre o corpo de Desdêmona.

Iago nunca inventou nada abertamente. Apenas acendeu a insegurança de Otelo: seu medo de não ser suficiente, seu terror de ser enganado.

E penso que o manipulador mais perigoso não é aquele que mente para você, mas aquele que faz você mentir para si mesmo.

É isso, creio, que torna esta obra ainda mais sombria: Iago quase não precisou fazer nada, apenas semear dúvidas. O resto foi obra do próprio Otelo.


 
 
 

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