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Um pouco mais perto O que a raposa do Pequeno Príncipe sabia sobre amizade e amor

há 19 horas
4 min de leitura

Tem livros que a gente lê na infância e só entende muitos anos depois. O Pequeno Príncipe é um deles. Criança, a gente acha que é a história de um menino que viaja entre planetas. Adulto, descobre que é um livro sobre como as pessoas se aproximam umas das outras e, sobretudo, sobre por que tantas vezes não conseguem.

Uma cena, em especial, pede uma leitura mais demorada. O Pequeno Príncipe encontra uma raposa e a convida para brincar. Ela recusa, não por antipatia, mas porque ainda não foi cativada. Ele quer saber o que isso significa, e a raposa explica: cativar é criar laços.

Até aqui, nada de extraordinário. O bonito vem depois.

A receita da raposa

A raposa não propõe uma longa conversa, nem uma declaração, nem um pacto de amizade eterna. Propõe algo quase banal: que o menino venha todos os dias, sempre no mesmo horário, e se sente a certa distância. No dia seguinte, um pouco mais perto. E que não diga nada, porque as palavras costumam gerar mal-entendidos.

Parece pouco. É quase tudo.

Repare no pedido: tempo, regularidade e presença. Nenhuma intensidade, nenhuma promessa. Apenas a repetição paciente de um encontro.

Então a raposa conta o que acontece quando esse ritmo se instala. Se o menino vier sempre às quatro da tarde, desde as três ela já começará a ficar feliz. A alegria não começa no encontro, começa na espera. Mas, se ele aparecer a qualquer hora, ela nunca saberá quando preparar o coração.

Preparar o coração. Poucas expressões dizem tanto sobre as relações humanas.

Uma pitada de Freud: o carretel

Vale aqui uma breve visita ao consultório.

Freud conta que observou o neto, de um ano e meio, brincando com um carretel preso a um barbante. O menino o lançava para longe e dizia algo como “foi embora”. Depois puxava o barbante e, quando o carretel reaparecia, comemorava com um alegre “está aqui”. Sumiu, voltou. Sumiu, voltou. Por muito tempo.

Freud entendeu que aquela brincadeira tinha um sentido. A mãe do menino saía e voltava, e sobre isso ele não tinha controle algum. Com o carretel, ele encenava a ausência e o retorno e, pouco a pouco, aprendia a suportar a espera. A repetição transformava a angústia em algo possível de viver.

A raposa, que nunca leu Freud, sabe disso muito bem. A confiança não nasce de uma grande prova de amor. Nasce de alguém que vai embora e volta. E volta de novo. E outra vez. É a repetição que ensina ao nosso psiquismo que é possível esperar sem desespero.

Uma pitada de Winnicott: o silêncio

Outro detalhe precioso é o pedido de silêncio.

O psicanalista inglês Donald Winnicott dizia que uma das grandes conquistas do amadurecimento emocional é a capacidade de estar só na presença de alguém. Soa paradoxal, mas quem tem um amigo de verdade conhece bem essa experiência. É aquele amigo com quem dá para ficar calado no carro, na varanda, à mesa do café, sem que o silêncio pese. Ninguém precisa preencher o vazio com assunto.

Com quem acabamos de conhecer, o silêncio constrange. Com quem cativamos, o silêncio descansa.

O desencontro do nosso tempo

Agora pense em como costumamos construir relações hoje.

Queremos intimidade instantânea. Conhecemos alguém e, em poucos dias, já trocamos centenas de mensagens, contamos a vida inteira, fazemos planos. Tudo muito intenso. E, na mesma velocidade, tudo esfria. A intensidade, por mais bonita que pareça, não sustenta um vínculo: acende, mas não aquece por muito tempo.

A raposa ensina o contrário: vínculo é ritmo. Queremos relações profundas, mas fugimos da constância que elas exigem. Queremos que confiem em nós, mas não estamos presentes. Queremos laços, mas não reservamos tempo para compartilhar. Essa conta não fecha.

Amar alguém, seja um amigo, um parceiro ou um filho, pede paciência de jardineiro, e não espetáculo de fogos de artifício.

Os pequenos ritos

A boa notícia é que os ritos não precisam ser grandiosos. Quanto mais simples, melhor.

O café de toda quinta-feira. A ligação de domingo para a mãe. A pelada com os mesmos amigos há vinte anos. A mensagem de bom-dia que ninguém cobra, mas que faz falta quando não chega. O jantar em que o casal deixa o celular em outro cômodo. Gestos pequenos que, repetidos, dizem ao outro: pode esperar por mim, eu venho.

E quando o menino vai embora?

Há ainda um detalhe que costuma passar despercebido. No fim da história, o Pequeno Príncipe precisa partir, e a raposa sabe que vai sofrer. Ele pergunta se, então, tudo valeu a pena. Ela diz que sim. Antes, os campos de trigo não lhe diziam nada. Agora, a cor do trigo vai sempre lembrá-la dos cabelos dourados do amigo.

Cativar alguém é aceitar que o mundo ganhe novos significados, inclusive o da saudade. Quem cria laços aceita a possibilidade da perda e, ainda assim, escolhe se aproximar.

Para terminar

Talvez valha uma pergunta honesta: quem eu estou cativando? Com quem tenho um horário, um rito, um jeito de estar presente que não depende de ocasiões especiais?

A fórmula da raposa continua valendo. Todos os dias, no mesmo horário, um pouco mais perto.

Texto inspirado em um vídeo de Yosvany GC (@yosvany_gc).

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