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Moises Matos - A Primeira Jogada. Por que exigimos conhecer o futuro antes de começar?

25 de jul.
5 min de leitura

Atualizado: 3 de ago.

Há uma frase que ouço no consultório com regularidade quase monótona. Ela aparece com pequenas variações — “ainda não é o momento”, “preciso de mais clareza”, “quando eu tiver certeza, eu decido” —, mas o esqueleto é sempre o mesmo. A pessoa não está paralisada por falta de coragem. Está esperando uma informação que, por razões estruturais, não pode chegar antes da decisão.


Penso nisso toda vez que vejo um tabuleiro de xadrez montado, antes do primeiro lance. É a única posição da partida em que nada deu errado. Nenhuma peça foi capturada, nenhum plano fracassou, nenhuma oportunidade se perdeu. Tudo ainda é potência. E é exatamente aí que muitos jogadores sentem o aperto: não diante da derrota, mas diante da abertura.


Este ensaio não é sobre xadrez. O jogo me interessa como modelo reduzido, pequeno o bastante para caber em sessenta e quatro casas e grande o bastante para expor um problema que atravessa empresas, casamentos, teses, mudanças de país e análises. Somos obrigados a decidir antes de conhecer as consequências. A experiência que gostaríamos de ter antes de agir só existe depois. Não há atalho. É a estrutura do problema, não um defeito de caráter.


A conta que não fecha


Na posição inicial, as brancas dispõem de vinte lances legais. Depois da resposta das pretas, já existem quatrocentas sequências possíveis. Até aqui, nada assusta. O crescimento, porém, não é linear: depois de quatro lances de cada lado, o jogo comporta cerca de 85 bilhões de sequências, e com o lance seguinte das brancas o número passa de 2,4 trilhões.


Convém distinguir uma coisa da outra. Não são bilhões de posições diferentes sobre o tabuleiro, e sim bilhões de caminhos até elas. A distinção importa porque desloca o problema do espaço para o tempo. Cada movimento abre ramos, elimina outros e reorganiza inteiramente o campo das decisões seguintes.


Claude Shannon formulou a conclusão prática: não se vence o xadrez por força bruta. Ninguém percorre a árvore. Bons jogadores fazem outra coisa. Recortam algumas linhas promissoras, reconhecem configurações que já viram antes e aceitam trabalhar com um futuro parcialmente escuro.


Herbert Simon deu nome ao mesmo fenômeno fora do tabuleiro. Chamou-o de racionalidade limitada: não otimizamos, satisfazemos. Interrompemos a busca quando encontramos algo suficientemente bom para seguir adiante. Durante muito tempo isso foi lido como uma concessão melancólica, o retrato de uma razão capenga. Não é. É a descrição de como a inteligência funciona quando precisa operar dentro do tempo.


Daí vem uma consequência que me parece pouco explorada. Exigir de si uma decisão perfeita é exigir um funcionamento incompatível com a arquitetura da própria mente. Quem faz isso não está sendo rigoroso. Está cobrando de si uma dívida impagável e, em seguida, punindo-se por não conseguir pagá-la.


O paciente que não move a peça


Kierkegaard descreveu a angústia como a vertigem da liberdade. Não é medo de alguma coisa, porque medo tem objeto e endereço. Angústia é o que sentimos diante do possível enquanto ele ainda é apenas possível. O tabuleiro intacto torna essa ideia quase visível: antes do primeiro lance, todas as partidas coexistem, e nenhuma existe.


Atendi por quase dois anos uma mulher de quarenta e poucos anos, extremamente competente, que havia recebido uma proposta para dirigir a operação de outra empresa. Ela chegava às sessões com planilhas. Comparava salários, projeções do setor, tempo de deslocamento, o histórico de rotatividade da nova diretoria. Refazia a conta toda semana, sempre com uma variável nova. Em determinado momento disse que precisava de mais seis meses para ter certeza. A proposta tinha prazo de quinze dias. Ela deixou vencer e passou os seis meses seguintes analisando a decisão que não havia tomado com o mesmo cuidado com que analisara a que poderia ter tomado.


O que a paralisava não era a dúvida entre ficar e sair. Era a exigência de sair sabendo. Enquanto nenhuma peça se move, nenhuma perda se concretiza, e essa é a sedução real da procrastinação. Ela não promete acerto. Promete a conservação de todas as possibilidades. O preço aparece devagar: o futuro deixa de ser construído e passa a ser apenas imaginado.


Raramente encontro no consultório pessoas destruídas por uma decisão errada. Encontro, com frequência muito maior, pessoas exauridas pela tentativa de montar a decisão perfeita. Passam anos diante de um tabuleiro imaginário, calculando lances que jamais serão jogados.


Errar não é voltar


Existe um ponto que costuma passar despercebido nessa conversa. O erro modifica a partida, mas não necessariamente a encerra. O tabuleiro não retorna ao estado anterior, e tampouco desaparece. Surge outra posição, com outros riscos e outras possibilidades.


A diferença entre desfazer e reparar é decisiva, e a vida é bem mais generosa com a segunda do que com a primeira. Desfazer quase nunca é possível. Responder ao que aconteceu quase sempre é. Reparar não apaga o passado; constrói sentido a partir dele.


Por isso desconfio da pergunta “como volto ao ponto anterior?”. Ela é compreensível e é estéril. A pergunta que produz movimento é outra: qual é o melhor lance possível a partir da posição em que estou? A primeira olha para trás e pede o impossível. A segunda aceita o tabuleiro como ele está, e é a única que permite jogar.


O que só se aprende jogando


Gostamos de imaginar que primeiro se compreende e depois se vive. A ordem real costuma ser inversa. Aprende-se a escrever escrevendo, a dirigir uma equipe dirigindo, a pesquisar pesquisando, a amar convivendo. Nenhum manual substitui a travessia e nenhuma preparação elimina inteiramente a surpresa. Isso não diminui o valor do estudo; apenas delimita o que ele pode fazer. O conhecimento prepara. Não vive por nós.


A primeira jogada não precisa conter a partida inteira. Precisa apenas tornar possível a segunda. Cada movimento acrescenta informação que antes não existia, e boa parte daquilo que chamamos de experiência é exatamente isso: conhecimento produzido pela travessia, indisponível antes dela.


Não se trata de um convite à imprudência. Planejar continua indispensável. Refletir continua sendo uma obrigação, sobretudo para quem responde por outras pessoas. Mas existe um ponto a partir do qual continuar esperando deixa de ser prudência e vira adiamento de uma aprendizagem que só ocorre vivendo. Reconhecer esse ponto talvez seja a competência mais difícil de todas, porque ele nunca chega anunciado.


A primeira jogada nunca foi promessa de vitória. Ela é a condição da partida, o instante em que se deixa o território da hipótese e se entra no da experiência. Depois dele haverá erro, correção, recomeço. Antes dele não há nada. Apenas o tabuleiro montado, perfeito, e nenhuma partida acontecendo.


Reflexões Finais


A vida é um jogo complexo. Cada decisão que tomamos molda nosso futuro. Portanto, é essencial agir. O medo da incerteza não deve paralisar. Ao invés disso, devemos abraçar a possibilidade de errar e aprender.


A experiência é o que nos ensina. Cada movimento no tabuleiro da vida nos traz novas informações. O conhecimento adquirido ao longo do caminho é valioso. Ele nos prepara para as próximas jogadas.


Por fim, lembre-se: a ação é o que transforma o potencial em realidade. Não espere pela certeza. O momento de agir é agora.


Os números correspondem à contagem de sequências legais a partir da posição inicial, medidas em meios-lances — isto é, contando alternadamente as jogadas das brancas e das pretas: 20 após o primeiro, 400 após o segundo, 84.998.978.956 após o oitavo e 2.439.530.234.167 após o nono.


Moises Matos Psicanalista e Escritor
 
 
 

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