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Moises Matos - O teto de toda a vida. Sobre a Carta ao Pai, de Franz Kafka, e a destruição silenciosa.

6 de ago.
4 min de leitura

Em novembro de 1919, em Praga, um homem de trinta e seis anos sentou-se para escrever a carta mais longa de sua vida. A carta era dirigida a seu pai e tinha cem páginas. Quando a terminou, entregou-a à mãe para que a levasse ao destinatário. Assustada, porém, ela decidiu que era demais e nunca a entregou, sem sequer tê-la lido. Pouco tempo depois, o filho morreu sem ter resolvido nada. Chamava-se Franz Kafka.

Como um pai pode destruir um filho sem lhe gritar o tempo todo, sem maltratá-lo de maneira evidente?

Seu pai era Hermann Kafka.

Ele o destruía de outro modo: por meio de uma atmosfera que havia criado.

Kafka conta que, quando era pequeno e levava uma ideia ao pai ou lhe narrava algo que acontecera na escola, o pai não respondia. Não discutia a ideia, não a examinava, não a levava a sério. Apenas ria, mudava de assunto ou fazia algum comentário depreciativo.

À mesa da família acontecia o mesmo. Quando Franz falava, o pai o interrompia. Mas não o interrompia por causa do que dizia; interrompia-o por causa da forma. Dizia que ele estava sentado de maneira errada, que mastigava de boca aberta, que aquele tom de voz não era adequado, que aquilo não se dizia daquele jeito.

Até que Franz deixou de falar à mesa.

Sentava-se em silêncio, comia depressa e ia embora.

Quando levava um amigo para casa, o pai o avaliava com um simples olhar. Depois que o rapaz ia embora, sempre fazia algum comentário: Franz precisava conviver com pessoas melhores, mais importantes.

Até que Franz deixou de levar amigos para casa.

Quando mostrava ao pai algo que havia escrito, Hermann pegava os papéis, lançava-lhes um olhar distraído, deixava-os sobre a mesa e voltava ao que estava fazendo, sem ler uma única linha, sem fazer qualquer observação.

Até que Franz, naturalmente, deixou de lhe mostrar o que escrevia.

O que Kafka compreenderia mais de trinta anos depois era que nenhuma dessas cenas, isoladamente, parecia extraordinária.

Se o pai o tivesse espancado, todos teriam visto.

Se o tivesse insultado abertamente, alguém talvez pudesse protegê-lo.

Mas Hermann Kafka não fazia nada disso.

Limitava-se a lhe mostrar, milhares de vezes ao longo da infância, que aquilo que ele fazia, dizia, pensava ou sentia não tinha importância.

Franz aprendeu a acreditar no pai.

Cresceu convencido, num lugar muito profundo de si mesmo, onde a razão já não alcançava, de que aquilo que fazia, dizia, pensava ou sentia realmente não tinha importância.

E essa convicção, explicava Franz a seu pai nas últimas páginas da carta, acabaria tornando-se o teto de toda a sua vida.

*

A carta que não chegou


Há traumas que vêm de um acontecimento e há traumas que vêm de uma atmosfera.

O acontecimento pode ser nomeado. Um golpe tem hora, tem marca, tem testemunha. Contra ele é possível, ao menos, revoltar-se.

A atmosfera não. Ela não acontece em nenhum momento, porque acontece em todos. Não deixa marca, porque é o próprio ar. E ninguém se defende do ar que respira.

Foi isso que Hermann fez com o filho. Nunca um golpe, apenas um clima. Uma dissolução lenta, distribuída por milhares de gestos mínimos, nenhum dos quais, sozinho, pareceria grave.

A psicanálise tem um nome para o que aí se passa. Ferenczi chamou-o de identificação com o agressor. Diante do adulto que detém todo o poder, a criança não se opõe: adere. Introjeta o juízo daquele que a diminui e passa a formulá-lo com a própria voz. É o que Kafka descreve com uma precisão que assusta ao escrever que aprendeu a acreditar no pai. O desprezo deixa de vir de fora. Instala-se dentro, e de dentro já não precisa de Hermann para continuar operando.

Winnicott acrescentaria outra peça. A criança se constrói no olhar que a reflete; é na face do outro que ela encontra, pela primeira vez, a prova de que existe e de que importa. Quando esse olhar devolve sempre a mesma mensagem, a de que isso não tem importância, o gesto espontâneo recua. Franz recuou. Deixou de falar à mesa, deixou de levar amigos, deixou de mostrar o que escrevia. Cada renúncia foi um pedaço de si que se retirou para não ser desmentido outra vez.

E é aqui que a ferida muda de natureza. Uma vez instalada, essa voz não se comporta como opinião, mas como lei. Não é uma dúvida sobre o próprio valor, dessas que ainda admitem discussão; é uma certeza calada, anterior a qualquer prova. Deixa de ser algo que Franz pensa sobre si e passa a ser o solo de onde ele pensa. O teto sob o qual toda a sua vida vai caber.

Resta ainda o último detalhe, quase insuportável de tão exato. A carta, cem páginas escritas aos trinta e seis anos para que o pai enfim o levasse a sério, foi entregue à mãe. E a mãe, achando que era demais, não a entregou. Nem sequer a leu.

No gesto mesmo de tentar romper a atmosfera, a atmosfera se repetiu. O que Franz tinha a dizer voltou a ser julgado excessivo, inconveniente, sem importância, e foi retido. A carta não chegou, como nunca chegava nada.

Talvez essa seja a descrição mais fiel do que Kafka viveu. Não a de um filho maltratado, mas a de um filho cuja existência jamais foi tratada como tendo peso. E a psicanálise sabe algo essencial sobre essa ferida, a do não reconhecimento: ela não se cura sendo explicada. Cura-se, quando se cura, sendo escutada por alguém que a leve a sério. Foi o que faltou a Franz, o que a carta pedia e o que, mais uma vez, não lhe foi dado.

 
 
 

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