O Morto que Fala Memórias Póstumas de Brás Cubas e o inconsciente que Freud ainda não tinha nomeado
- Administração Warmup
- há 3 dias
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I. Um narrador impossível
Há algo profundamente estranho na primeira linha das Memórias Póstumas de Brás Cubas: um homem morto que escreve. Machado de Assis publica o romance em 1881 — onze anos antes de Freud e Breuer apresentarem seus primeiros estudos sobre a histeria. E, no entanto, o que Brás Cubas inaugura como posição narrativa é precisamente aquilo que a psicanálise levaria décadas para articular: existe um ponto de fala que está além da consciência, que não está vivo no sentido ordinário do termo, e que, justamente por isso, diz o que o sujeito vivo jamais poderia admitir.
Brás Cubas narra de além-túmulo. Essa é a sua vantagem, ele mesmo proclama: não tem esperanças a guardar, nenhuma reputação a proteger, nenhum futuro a temer. Mas o que a psicanálise nos permite ler nessa posição não é liberdade — é estrutura. O narrador morto é uma alegoria do inconsciente: aquilo que o sujeito não pode enunciar em vida, que ficou soterrado sob camadas de racionalização, de conveniência e de vergonha, e que só emerge quando a pressão do recalque encontra uma fresta.
Freud chamaria isso de retorno do recalcado. Machado chamou de memórias póstumas. A diferença é apenas de vocabulário.
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II. O recalque como estética
O que chama atenção em Brás Cubas não é o que ele confessa — é o que ele não confessa, mesmo confessando. Ele admite ter sido medíocre, ter falhado em tudo, ter amado mal. Mas há uma satisfação estranha na confissão, um prazer que a psicanálise reconheceria como gozo: a autopunição que, na superfície, parece humildade, mas que por baixo é uma forma de esquivar-se de qualquer responsabilidade real. Confessar tudo é uma maneira de não elaborar nada.
Freud, em Luto e Melancolia (1917), distingue o trabalho do luto — processo pelo qual o eu se desinveste de um objeto perdido e se reconstrói — da melancolia, em que o objeto perdido é incorporado ao eu, transformado em acusação interna permanente. Brás Cubas é o melancólico perfeito. Ele não perde e segue em frente. Ele perde, incorpora a perda, e a transforma em narrativa. Sua escrita não é elaboração — é o próprio sintoma em funcionamento.
Cubas perde Marcela, perde Virgília (enquanto a tem), perde a chance de ser político, perde o amor de Quincas Borba na infância, perde o filho que jamais gerou. E cada perda é narrada com aquela ironia fina que o leitor aprende a reconhecer: uma ironia que não ri de fora, mas de dentro — de um lugar em que o sujeito já desistiu de acreditar que poderia ter sido diferente.
"Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas."
A dedicatória ao verme não é apenas ironia literária. É um gesto de identificação com a decomposição — com aquilo que dissolve, que apaga, que não preserva. Brás Cubas não quer ser lembrado como herói. Ele quer ser lembrado como aquele que não deixou nada. É um triunfo às avessas, uma vitória sobre o desejo de reconhecimento pela via da sua própria anulação.
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III. A pulsão de morte antes de Freud
Em 1920, Freud propõe o conceito que mais perturbou seus próprios seguidores: a pulsão de morte. Mais além do princípio do prazer, existe no aparelho psíquico uma tendência à descarga total, ao retorno ao inorgânico, ao apagamento. Não é desejo de morrer no sentido vulgar — é algo mais estrutural, uma força que atravessa o sujeito na direção oposta ao investimento, à construção, ao vínculo.
Brás Cubas é habitado por essa força antes de ela ter nome. Cada vez que poderia investir — em Virgília, na política, na escrita do emplasto Brás Cubas, invenção que sonhava lhe trazer glória — ele recua, sabota, ironiza. Não por covardia, mas por algo mais obscuro: uma recusa de origem que ele mesmo não consegue localizar. É como se o personagem soubesse, desde sempre, que qualquer construção seria provisional, e preferisse a desconstrução antecipada à dor da perda real.
A clínica reconhece esse padrão. São os pacientes que chegam ao consultório explicando, com notável eloquência, por que qualquer tentativa de mudança está fadada ao fracasso. A inteligência a serviço da inércia. O insight que não move. Brás Cubas é um personagem analiticamente brilhante e clinicamente intratável — e Machado parece saber exatamente isso.
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IV. Literatura como acesso ao que a clínica demora a ver
A Psycholiteratura parte de uma convicção: a literatura não ilustra a psicanálise. Ela a precede. Antes de qualquer conceito, existe o personagem — a figura que encarna, na carne da linguagem, aquilo que a teoria tentará depois capturar em categorias.
Brás Cubas é anterior a Freud cronologicamente e, de certa forma, também clinicamente. Machado não precisou da metapsicologia para criar um sujeito que recalca, que repete, que melancólica, que goza no fracasso, que transforma a narrativa em defesa contra o luto. Ele chegou lá pela única via que antecede a teoria: a atenção radical à experiência humana.
Por isso, quando trabalho com executivos e líderes em transição — pessoas que chegam ao consultório relatando que construíram tudo e, agora, sentem que não têm nada — às vezes me pergunto se Brás Cubas não seria um espelho mais honesto do que qualquer diagnóstico. O homem que chegou ao fim com o saldo negativo como troféu. Que não gerou filhos, não completou obras, não deixou legado — e que narra isso com uma maestria que é, ela própria, o legado que ele dizia não ter.
Há algo de profundamente contemporâneo nessa figura. O executivo de alto desempenho que, ao deixar o cargo, descobre que o cargo era o self. O fundador que vendeu a empresa e não sabe mais quem é. O líder que passou décadas construindo para outros e nunca se perguntou o que construía para si. Brás Cubas os antecipa a todos — e os acolhe, com ironia, do lado de lá.
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V. O saldo negativo como questão clínica
O romance termina com um dos finais mais célebres da literatura brasileira. Brás Cubas faz o balanço de sua vida e conclui que saiu no lucro: não teve filhos, portanto não transmitiu a nenhum ser humano a miséria de existir. É uma lógica de devastação apresentada como consolo.
Freud, em O Mal-Estar na Civilização (1930), argumenta que a civilização exige dos indivíduos uma renúncia pulsional permanente — e que essa renúncia produz um resíduo de sofrimento que nenhuma cultura consegue absorver por completo. Brás Cubas resolve o problema à sua maneira: recusando-se a participar da transmissão. Se a existência é mal-estar, a solução é encerrar a cadeia.
Clinicamente, esse é um gesto que reconhecemos: o paciente que decide, em algum nível, não investir para não perder. Que não ama para não ser abandonado. Que não cria para não fracassar. Que prefere o saldo neutro à aposta que poderia dar errado. Machado diagnosticou isso em 1881 com uma precisão que ainda nos convoca.
E talvez seja essa a função mais silenciosa da literatura na clínica: não fornecer respostas, mas fazer as perguntas que o paciente ainda não encontrou palavras para formular. Às vezes, basta perguntar: você já leu Brás Cubas? E esperar o que vem depois.
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Moisés Matos
Psicanalista clínico · Autor · Psycholiteratura
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