Rubião e a ferida do útil: Uma leitura psicanalítica de Quincas Borba
- Administração Warmup
- há 2 dias
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"Existe uma das experiências mais humilhantes da vida. Descobrir que alguém só fazia questão da sua presença enquanto você tinha alguma coisa para oferecer."
Do carrossel @moisesmatos.psicanalise
Rubião não era um tolo. Era um homem com fome de ser amado — e essa fome, quando não encontra alimento verdadeiro, aceita qualquer coisa que se pareça com ele. Aceita admiração que é interesse. Aceita amizade que é estratégia. Aceita pertencimento que é extração. Machado de Assis sabia disso e construiu, em Quincas Borba, um dos retratos mais precisos e mais cruéis da confusão estrutural entre ser necessário e ser amado.
Esta leitura não pretende substituir a crítica literária. Pretende, ao contrário, iluminar pelo avesso: usar Rubião como chave clínica para uma pergunta que o consultório devolve, com outras palavras, quase todos os dias.
A herança e o desejo de pertencer
Rubião herda a fortuna de Quincas Borba — filósofo excêntrico, seu único amigo real — e parte de Barbacena para o Rio de Janeiro carregando também o cão de estimação do morto, como condição testamentária. A herança material é evidente; menos evidente, mas decisiva, é a outra herança: o Humanitismo, filosofia inventada por Quincas Borba que resume, de forma grotesca, a lei do mais forte. Ao vencedor, as batatas.
Rubião não absorve essa filosofia como doutrina. Mas a incorpora como destino: ele vai ser as batatas — o recurso disponível que os outros consomem. Machado instala no centro do romance uma ironia feroz: o herdeiro de uma filosofia que justifica a exploração torna-se seu objeto mais perfeito.
Mas por quê Rubião não resiste? Porque chega ao Rio com algo mais urgente do que o dinheiro: chega com uma fome de pertencer que vem de longe. Homem simples, professor de aldeia, sem família próxima, sem círculo social — a herança não lhe dá apenas fortuna, dá a primeira oportunidade de ser visto. De existir no olhar do outro.
O mecanismo: como o interesse se disfarça de amor
Cristiano Palha o recebe como sócio, parceiro, amigo. Sofia o faz sentir especial — olha para ele de um jeito que ninguém nunca olhou. Convidam. Incluem. E Rubião, que passou a vida sem receber esse tipo de atenção, não tem como distinguir: o interesse chega com a forma exata do carinho.
Em termos clínicos, o que acontece aqui é a ativação do amor anaclítico — conceito que Freud elabora em "Introdução ao narcisismo" (1914). Nesse modo de amar, o objeto é escolhido não pela sua singularidade, mas pela função que cumpre: alimentar, proteger, conter, completar. Palha e Sofia não amam Rubião: amam o que ele tem e, sobretudo, o que ele pode oferecer. Rubião é escolhido como objeto anaclítico — aquele cujos recursos suprem uma carência do outro.
O problema é que Rubião, ele mesmo, funciona no mesmo modo: ama anacliticamente quem lhe oferece reconhecimento. A operação é especular. Cada um usa o outro para suprir aquilo que lhe falta — mas apenas Rubião paga com o que tem de concreto. Os outros pagam com simulacro.
Verleugnung: saber sem poder acreditar
Os sinais aparecem cedo. Pedidos de dinheiro. Pequenas manipulações. Interesses mal escondidos. Sofia sorri para outro com o sorriso que Rubião acreditava ser exclusivamente seu.
E Rubião vê. Mas não consegue acreditar. Esse não é um detalhe menor — é o núcleo psicológico do personagem. Freud nomeou esse mecanismo Verleugnung, geralmente traduzido como desmentido ou recusa: a clivagem que permite ao sujeito perceber uma verdade insuportável e, simultaneamente, recusar sua integração psíquica. Je sais bien, mais quand même — sei muito bem, mas ainda assim.
Por que a integração é insuportável? Porque aceitar que Palha e Sofia apenas o usam significa aceitar algo ainda mais devastador: que o lugar onde acreditava pertencer talvez nunca tivesse gostado dele. Que a primeira experiência de ser visto era falsa. Que a fome de pertencer continuava sem resposta real. Essa é a verdade que chega aos olhos muito antes de chegar ao coração — e o coração resiste porque não tem como arcar com o vazio que a verdade deixaria.
A ilusão perdida e a dor específica do desmentido
Rubião não perde apenas dinheiro. Perde uma ilusão — e isso é categoricamente diferente. Perder dinheiro é perder um recurso; perder uma ilusão é perder a estrutura que organizava a realidade. É perder o enquadramento dentro do qual o self fazia sentido.
Freud, em "Luto e melancolia" (1917), distingue o luto — elaboração possível de uma perda real — da melancolia, em que a perda é do objeto idealizado. Rubião não pode fazer luto de Palha e Sofia porque nunca os teve como eram: teve apenas a projeção do que precisava que fossem. O luto de uma ilusão é sempre mais lento e mais obscuro do que o luto de uma realidade, porque não há um corpo para enterrar. Há apenas o colapso gradual de uma narrativa.
Machado captura isso com precisão cirúrgica: a deterioração de Rubião não é súbita. É lenta, cumulativa, pontuada por momentos em que ele ainda tenta relançar a ilusão — fazer mais uma generosidade, oferecer mais uma vez, comprar mais um pouco de presença. É a estrutura de quem aprendeu que existir precisa ser comprado. E que, quando o crédito acaba, o amor some junto.
A loucura como restituição narcísica
O desfecho de Rubião — delirando que é Napoleão — não é um recurso melodramático. É o desenlace necessário de uma estrutura psíquica que não encontrou outra saída.
Quando o investimento libidinal no objeto externo (Sofia, o mundo social do Rio) é retirado de forma abrupta pela realidade, a libido não desaparece — ela retorna. E retorna ao eu. Freud descreve esse movimento no caso Schreber: quando o mundo externo falha definitivamente como suporte, o eu infla. A megalomania não é loucura aleatória — é restituição narcísica. O sujeito que não pôde ser especial para o outro torna-se o mais especial de todos os outros — imperador, conquistador, o centro do mundo.
Há uma lógica clínica perversa nisso: a grandiosidade delirante protege contra o vazio que a verdade sobre Palha e Sofia teria revelado. Melhor ser Napoleão no delírio do que ser Rubião na realidade — o homem que foi amado pelo que tinha, não pelo que era.
O Humanitismo como superego social
Vale nomear o enquadramento ideológico que Machado constrói ao redor dessa história. O Humanitismo — filosofia de Quincas Borba, síntese irônica do positivismo e do darwinismo social do século XIX — funciona como superego coletivo: a gramática que autoriza a exploração e a naturaliza como lei universal. Ao vencedor, as batatas não é apenas uma boutade: é a justificativa estrutural para que Palha e Sofia não sintam culpa. Eles vencem; Rubião perde. O sistema aprovaria.
A crítica de Machado opera em dois níveis simultâneos: o psicológico (a ilusão de Rubião) e o sociológico (a ideologia que torna essa ilusão possível e lucrativa para quem explora). O romance não tem moralismo porque Machado entende que o problema não é individual — é estrutural. Em qualquer época em que o valor de uma pessoa seja medido pelo que ela pode oferecer, haverá Rubião. E haverá Palhas.
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O que Machado pergunta, o consultório confirma
A última imagem do carrossel traz a pergunta de Machado trazida para o presente: "Em que lugar da sua vida você tem confundido ser necessário com ser amado?"
É uma pergunta clínica disfarçada de questão literária. No consultório, ela aparece com outras palavras: no fundador que não consegue delegar porque sem a empresa não sabe quem é; no executivo que multiplica favores esperando que o afeto venha de volta; no líder que descobre, numa transição de carreira ou numa aposentadoria, que as ligações pararam. Que a agenda esvaziou. Que o sorriso de Sofia era endereçado ao cargo, não à pessoa.
A estrutura é a mesma de Rubião: o sujeito que aprendeu, muito cedo, que existir precisava ser justificado pela utilidade. Que o lugar no mundo não estava garantido — precisava ser comprado, renovado, merecido. E que, quando a função cessa, o vazio que aparece não é novo: é o mesmo de sempre, só agora sem a cobertura da utilidade para escondê-lo.
Rubião ficou no século XIX. A ferida que ele carregava é contemporânea.
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Referências
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. São Paulo: Penguin / Companhia das Letras.
FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo [1914]. In: Obras completas, vol. 12. São Paulo: Companhia das Letras.
FREUD, Sigmund. Luto e melancolia [1917]. In: Obras completas, vol. 12. São Paulo: Companhia das Letras.
FREUD, Sigmund. Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranoia (Caso Schreber) [1911]. In: Obras completas, vol. 10. São Paulo: Companhia das Letras.
FREUD, Sigmund. A divisão do ego no processo de defesa [1940]. In: Obras completas, vol. 19. São Paulo: Companhia das Letras.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed.
Moisés Matos — psicanalista clínico e escritor. Atende executivos, fundadores e líderes em transições de carreira, sucessão e identidade. moisesmatos.com.br
Psycholiteratura ·
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