top of page
cartavenezia-horizontal-transparente.png
—Pngtree—whatsapp icon png whatsapp logo_3562015.png
—Pngtree—whatsapp icon png whatsapp logo_3562015.png

Viciado no próprio mal-estar O gozo do sofrimento, o ganho secundário e a coragem de mudar

  • Foto do escritor: Administração Warmup
    Administração Warmup
  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

Há um tipo de sofrimento que reclama de si mesmo em voz alta, mas que, no silêncio, não quer ir embora. Um vídeo curto que circula pelas redes formula isso com uma crueldade útil: a de que muita gente se tornou viciada no próprio mal-estar. A frase incomoda porque é verdadeira — e porque toca numa das descobertas mais antigas e mais resistidas da psicanálise: a de que o sintoma, longe de ser só um estorvo, presta serviços.

Transcrevo abaixo a fala, em português, e a uso como ponto de partida para uma questão clínica que reencontro com frequência em quem lidera: a queixa que se cronifica em identidade, e a mudança que se adia porque, no fundo, custaria caro demais deixar de sofrer.

A transcrição

Reprodução fiel da fala do vídeo, traduzida do espanhol:

“Você se tornou viciado no seu próprio mal-estar.

Reclama da sua vida, mas, no fundo, esse sofrimento lento é a sua zona de conforto.

É o seu refúgio: você o usa para não ter que se arriscar a mudar.

Estar mal te dá uma importância barata que justifica a sua falta de coragem.

Você está preso nos seus problemas.

Está apaixonado pela compaixão que recebe quando se faz de vítima.

Ninguém vai vir te salvar.

E a boa notícia é que você não precisa que ninguém venha.”

Nota do autor: o vídeo original (@mavimeditacion) traz legenda dinâmica palavra a palavra; a transcrição preserva o sentido e o ritmo da fala, com ajustes mínimos de fluência para a leitura em português.

Quando reclamar não é querer mudar

Existe uma diferença sutil, mas decisiva, entre sofrer e estar apegado ao sofrimento. Quem sofre busca uma saída. Quem está apegado busca — sem saber — uma forma de permanecer. A queixa, nesse segundo caso, não é um pedido de mudança: é um modo de habitar o problema com uma certa segurança. Reclama-se muito, e justamente por isso nada se move.

A frase mais afiada do vídeo é a que fala de “importância barata”. Ela nomeia algo que raramente admitimos: o mal-estar rende. Rende atenção, rende cuidado, rende uma identidade pronta — a de quem “passa por muita coisa” — e, sobretudo, rende uma desculpa. Enquanto o problema existe, a coragem de mudar fica dispensada. O sofrimento vira álibi.

Base teórica

O que o vídeo intui, a psicanálise formaliza há mais de um século. Não se trata de fraqueza moral nem de falta de força de vontade — trata-se de uma economia psíquica em que o sofrimento cumpre funções. Vale nomeá-las.

Freud: o ganho secundário do sintoma

Freud observou que o sintoma, além do sofrimento que causa (o ganho primário, ligado ao alívio de um conflito inconsciente), passa a oferecer vantagens secundárias: a atenção dos outros, a dispensa de obrigações, um lugar reconhecível na trama familiar ou profissional. Uma vez instaladas, essas vantagens fazem o sujeito resistir à cura. Curar-se passaria a significar perder o que o sintoma garantia. É a razão pela qual alguém pode reclamar sinceramente de um problema e, ao mesmo tempo, sabotar toda tentativa de resolvê-lo.

Freud: a compulsão à repetição e a culpa que sabota

Em Além do princípio do prazer, Freud descreve a compulsão à repetição: a tendência a reencenar, uma e outra vez, situações penosas — como se houvesse uma satisfação obscura em repetir aquilo que faz mal. Anos depois, ao formular a reação terapêutica negativa, ele nota que certos sujeitos pioram justamente quando deveriam melhorar. Por trás disso, um sentimento inconsciente de culpa e uma necessidade de punição: sofrer, aqui, não é um acidente — é uma dívida sendo paga.

Lacan: o gozo, ou por que insistimos no que nos fere

Jacques Lacan dá a essa satisfação paradoxal um nome preciso: gozo (jouissance). Diferente do prazer — que busca o equilíbrio e a descarga —, o gozo é uma satisfação que excede o prazer e beira a dor. É o que explica que alguém possa estar, nas palavras do vídeo, “apaixonado” pelo próprio sofrimento. Não se repete o mal-estar apesar do desprazer; repete-se porque ele goza. Reconhecer o gozo do sintoma é o primeiro passo para não ser mais governado por ele.

A posição de vítima e a economia da compaixão

O vídeo é certeiro ao ligar o sofrimento à compaixão que se recebe ao se fazer de vítima. A posição de vítima tem uma gramática própria: transfere ao outro (ao mundo, ao passado, aos “problemas”) a responsabilidade pela própria vida, e cobra, em troca, cuidado e razão. É confortável porque isenta. E é uma armadilha porque, ao terceirizar a causa, terceiriza também a solução — que nunca vem, porque só poderia vir de dentro.

O líder viciado na crise

Traduzo para o território em que trabalho. Há líderes e fundadores que não vivem sem crise. Reclamam do caos, da sobrecarga, de serem “os únicos que se importam” — e, no entanto, reproduzem sem cessar as condições que geram esse caos. A crise dá importância, dá adrenalina, dá uma identidade de herói indispensável. Resolver o problema de forma definitiva seria perder o palco.

O mesmo mecanismo aparece na resistência à mudança: adiar uma sucessão, recusar a delegação, sabotar a própria saída de um ciclo esgotado. A queixa — “ninguém aqui dá conta sem mim” — é sincera e é, ao mesmo tempo, o ganho secundário que impede a mudança. Não por acaso, é comum alguém procurar análise não quando o sofrimento aperta, mas quando finalmente se cansa de sofrer sempre do mesmo jeito.

Ninguém vem — e essa é a boa notícia

A fala termina com uma frase que parece dura e é, na verdade, libertadora: “ninguém vai vir te salvar — e a boa notícia é que você não precisa que ninguém venha.” A psicanálise diria de outro modo, mas no mesmo espírito: a cura não é um resgate que vem de fora, é a passagem da queixa ao desejo. Enquanto se espera um salvador, permanece-se objeto do próprio sofrimento. Quando se assume a autoria da própria vida, deixa-se de ser vítima para se tornar sujeito.

Isso não significa culpar quem sofre — significa devolver-lhe o poder. Reconhecer o ganho escondido não é uma acusação; é uma chave. Porque só se pode abrir mão daquilo que, primeiro, se admite estar segurando. O fim do vício no mal-estar não começa com mais força de vontade: começa com a pergunta honesta — o que este sofrimento me poupa de enfrentar?

— · —

Referências

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, Sigmund. O ego e o id (1923) — sobre a reação terapêutica negativa e o sentimento inconsciente de culpa. Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia (1926) — sobre o ganho secundário e as resistências. Rio de Janeiro: Imago.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.


Moisés Matos — psicanalista clínico e escritor. Atende executivos, fundadores e líderes em transições de carreira, sucessão e identidade. moisesmatos.com.br

 
 
 

Comentários


bottom of page